22 maio, 2009

(...)como mais uma gota d'água que se incorpora ao nosso lago.

Lealdade,amor,paixão ,fidelidade, sobretudo amor e cumplicidade...

É uma fotografia histórica.

Foi tirada em 1996, no enterro de François Mitterrand, tendo merecido à viúva do Presidente (na foto de cachecol branco, ao lado do filho do casal, Jean-Christophe) duríssimas críticas por parte do povo francês, ao ter permitido a seu lado a presença da amante do marido, Anne Pingeot (na foto com um pequeno chapéu preto), e da filha ilegítima,Mazzarine (de cachecol preto na foto).
Como resposta, Danielle Mitterrand escreveu uma carta dirigida aos
franceses resposta essa que dividiu a França.

"Antes de mais nada devo deixar claro que não é um pedido de desculpas. Muito menos um enunciado de justificativas vãs, comum aos covardes ou àqueles que vivem preocupados, em excesso, com a opinião dos outros.

Aos 71 anos, vivendo a hora do balanço de uma existência que é um sulco bem traçado e profundo, já não mais preciso e nem devo correr atrás de possíveis enganos.
Vivo o momento em que as sombras já esclarecem, e que as ausências são lindas expressões de perenidade e criação.

Sombras e ausências podem ser tudo, ao passo que luzes e presenças confundem os mais precipitados e os mais jovens.

Vivi com François 51 anos; estive com ele em muito desse tempo e me coloquei sempre. Há mulheres que não se colocam, embora estejam; que não se situam, embora componham o cenário da situação presumível. Uma vida de altos e baixos. Na época da Resistência, nunca sabíamos onde passaríamos a noite -- se na cama, na prisão, nos bosques, ou estendidos por toda a eternidade. Quando se vive assim em comum cria-se uma solda, e a consciência de que é preciso viver depressa. Concentrar talvez seja a palavra. Por isso tentei entendê-lo, relacionar-me com sua complexidade, com as variações de sua pessoa e não de seu caráter. Quem entende, ou pelo menos luta para compreender as variações do outro, ama realmente. E nunca poderá dizer que foi enganada, ou que jamais enganou.

Não nos enganamos, nos confundimos quando nos perdemos da identidade vital do parceiro, familiar ou irmão. Ou jamais os conhecemos, o que também não é um engano. Quem não conhece não tem enganos!

Nas variações do outro, não cabe o apaziguador que destrói tudo antes do tempo, em forma de tranquilidade. Uma relação a dois não deve ser apaziguada, mas vibrante, apaixonada, e não enfastiada. Nessa complexidade, vi que meu marido era tão meu amante quanto da política. Vi também que, como um homem sensível, poderia se enamorar, se encantar com outras pessoas, sem deixar de me amar.

Achar que somos feitos para um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo.

É preciso admitir docemente que o ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém, e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente.

Não somos o centro amorável do mundo do outro.

É preciso aceitar também outros amores, que passam a fazer parte desse amor como mais uma gota d'água que se incorpora ao nosso lago.

Simone de Beauvoir dizia bem que temos amores necessários e amores contingentes ao longo da vida.

Aceitei a filha de meu marido e hoje recebo mensagens do mundo inteiro de filhos angustiados que me dizem :

"Obrigado por ter aberto um caminho.
Meu pai vai morrer, mas eu não poderia ir
ao enterro porque a mulher dele não aceitava".

É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento, comum aos moralistas, aos caluniadores e aos paranóicos azedos que teimam em sujar tudo.

Espero que as pessoas sejam generosas e amplas para compreender e amar seus parceiros em suas dúvidas, fragilidades, divisões e pequenas paixões.

Isso é amar por inteiro e ter confiança em si mesmo.


Danielle "

9 comentários:

Tyna disse...

Nossa menina amei...
Isso é amor, o resto é história e eu tenho tanto pra aprender.
Magnífico post.
Beijos Incontidos

Francisco disse...

Quantas pessoas que vivem um "faz de conta" insuportável, e não têm a fibra e a postura de Danielle Mitterrand.
Que bela lição de amor e dignidade.
Um beijo!!

Denise disse...

Flor, bom receber sua visita...bom ler você e o que te desperta.
Adorei essa carta...quanto precisamos aprender sobre nós mesmo,né? Essa vida que nos faz contrários...que bom!!!

beijos doces

Denise disse...

Denise
Grata pela visita .
Todas Denises que conheço são de fato especiais rs
Beijo

De

Denise disse...

É Francisco

Quanta hipocrisia se vê por ai,e pior tão acostumados estamos que qdo nos deparamos com o assumir a verdade e saber lidar de forma amorosa e magistral com elas,muitas vezes nos incomodamos.

Tão melhor lidar com verdades do que viver historias de mentira.

beijos

De

Denise disse...

É Tyna

TEMOS (eu um monte) que aprender muito.

beijo

De

Blog do Óbvio disse...

"Isso é amar por inteiro e ter confiança em si mesmo".
* Serve para todo mundo. Se dissesse "Isso é amar" , já estaria dando uma aula de amor.
Parabéns pela linda postagem. Beijinhos. Manoel.

Denise disse...

Manoel
Incrivel como falamos tanto que amamos,ama-se essa e aquela,ama-se esse e aquele.
Mas amar ,amar mesmo,é tão dificil,faz parte de um aprendizado tão longo ,não é?

Beijo
De

Paulo Braccini disse...

Perfeita sua homenagem a esta mulher Danielle Mitterrand. Coisa rara neste mundinho pequeno e cada vez mais sórdido e desprovido de pessoas de caráter e altivez. Lindo seu post.